MEMORIAL GAMENSE

"Preservando a historia do futebol gamense"

10 anos do fim da era Wagner Marques no Gama.

No dia 21 de novembro de 2011, após quatro horas de reunião, os 24 conselheiros presentes em consenso com os diretores decidiram pela renúncia geral de toda atual diretoria. Nova chapa da oposição será montada para assumir o clube.

 

Foi uma reunião cansativa, porém, com resultados muito além do esperado. Marcada a primeira chamada para as 17h30 e a segunda com começo imediato às 18h, a assembleia só começou de fato com meia hora de atraso e sem Wagner Marques e Gilberto Gatti (presidente do conselho deliberativo), que chegaram atrasados. Tonhão foi quem comandou a mesa.

 

A parceria FUNFA + Gama

 

O primeiro ponto polêmico da assembleia foi o contrato firmado entre SEG e FUNFA. Presente no local, Mohammed, o "FUNFA", foi chamado até à mesa para explicar a parceria do Gama com a empresa. O empresário começou falando de quando entrou na parceria. "Houve o contato comigo do Vilson, se eu não queria investir na categoria de base do Gama. Até então eu não conhecia o mundo do futebol. Eu não entrei por amor ao clube nem nada, eu entrei para ganhar dinheiro, para ter retorno, firmamos um contrato de 50% para mim e 50% para o Gama na venda dos jogadores", afirmou "FUNFA".

 

FUNFA e Flávio Raupp apresentam seus pontos na mesa

Foto: Sérgio Vinícius (BloGama.Net)

Questionado sobre a metade do dinheiro da venda do Leandrinho para o Grêmio e o porquê do jogador ter sido negociado via Capital, Mohammed disse que o pai do garoto afirmou para seu irmão e sócio, Betinho, que não queria que o contrato fosse assinado com o Gama. FUNFA ainda disse que já investiu mais de R$600 mil no Gama desde que o acordo foi firmado, em 2008. "Esses R$200 mil não foram quase nada, eu gasto cerca de R$17 mil mensais nas categorias de base do Gama e temos tido ótimos resultados. Infelizmente o Gama não cumpriu com algumas das obrigações contratuais, mas mesmo assim eu mantive o trabalho", disse. Logo depois, Mohammed explicou a questão do dinheiro que deveria ser repassado ao Gama. "Mudamos o contrato com o Gama, passou a ser 80% para a FUNFA e 20% para o Gama. Por questões de não cumprimento de contrato". Toninho interrompeu a fala do empresário e disse que qualquer decisão financeira do Gama tem de ser definida em conselho. "Não houve assembleia para isso, você acertou essa mudança com o dirigente do Gama, mas não passou em assembleia. O seu contrato não vale nada", enfatizou o conselheiro gamense.

 

Depois de Toninho, foi a vez de Flávio Raupp questionar o dirigente das categorias de base do Gama. Raupp perguntou a Mohammed se ele já havia assinado em nome da Sociedade Esportiva do Gama alguma vez, a resposta foi negativa. Flávio tirou de dentro de uma pasta um documento de um processo trabalhista sobre a prestação de serviço entre o ex-supervisor de categorias de base, Francisco Assis, e a Sociedade Esportiva do Gama. Nesse contrato, quem assinou como representante do Gama foi Mohammed FUNFA. O empresário do ramo futebolístico se defendeu dizendo que realmente foi um equívoco e que assumiria essa responsabilidade diante a justiça.

 

Arilson Machado invadiu a avenida, no dia do tradicional desfile de aniversário da cidade do Gama, demonstrando toda sua rebeldia e portando uma faixa com os dizeres: Devolva o Gama para o Gama!

 

Foto: Memorial Gamense

 

 

Arilson Machado apresentou a prestação de contas após 3 meses de auditoria. Por esse trabalho, ele ganhou um título como sócio-benemérito do clube.

Foto: Sérgio Vinícius

 

Parceria com Brunoro Sport Business e auditoria das contas

Toninho e Wagner Marques atualizaram os conselheiros sobre o andamento da negociação com a Brunoro Sport Business. A parceria estatizaria a parte de futebol do Gama. Caso a parceria dê certo, a empresa que já obteve sucesso em vários de seus negócios, ficará responsável pela parte de futebol da Sociedade Esportiva do Gama durante 15 anos. Segundo dito na assembleia, o único entrave do início da parceria seria a falta de um patrocinador master, que bancasse o projeto da Brunoro.

 

Um fato que assustou a todos foi a declaração de Toninho. O conselheiro opositor disse ter pego no cartório os documentos da permuta do terreno da área de patrimônio gamense. Segundo Toninho, havia no cartório apenas o comprovante do pagamento dos R$4 milhões que a empresa fez para quitar ações trabalhistas e uma promissória no valor de R$27 milhões. Não havia escritura detalhando o que seria ou não do Gama no novo prédio da Tecnisa. Macedo mostrou-se assustado e se dispôs a ir no outro dia (sexta-feira, 25/11) registrar em cartório as propriedades do Gama no novo prédio. Um dos conselheiros, Sr. Braga, pediu a palavra. "Isso é uma vergonha, eu vou lá (cartório) com você Macedo".

 

O torcedor e contador, Arilson Machado, foi chamado para apresentar a prestação de contas da investigação financeira que fez no clube. Arilson questionou sobre dois importantes pontos nos documentos apresentados. Um aluguel de algo próximo a R$1.700,00 mensais e também sobre o pagamento a uma empresa de administração esportiva, no valor de R$92 mil. Miguel Peres perguntou de quem era tal empresa e Arilson disse que era de alguém com sobrenome "Macedo". O atual presidente disse que poderia explicar, acabou não explicando e afirmou fazer tal explicação perante a um juiz. Carlos Macedo também falou sobre o aluguel. Que é pago em troca do serviço médico do clube.

 

Wagner Marques falou sobre o que lhe é devido. "Já ouvi falarem por aí que cobrei R$4 milhões do Gama. Isso não existe, essa dívida não existe. O que existe, que eu tenho registrado uma dívida de R$1,8 milhões. O Gama já me pagou um certo valor, algo em torno de R$300 mil. Se eu tivesse feito um controle de tudo que investi no Gama nesses 19 anos, daria muito mais do que isso. Toninho pediu a palavra e disse que Wagner Marques seria uma espécie de parceria pro Gama. Mas que nessa parceria o Wagner ficaria com os lucros e o Gama com as dívidas, o mandachuva se defendeu.

 

 

 

Pedido de afastamento

 

Carlos Macedo, Vilson de Sá e Wagner Marques responderam a várias indagações

Foto: Sérgio Vinícius

Após o fechamento da pauta oficial, os conselheiros começaram a discutir outros pontos. Paulo Roberto Bolinha, líder do movimento "Quem mama fora do Gama", mostrou o abaixo-assinado feito na cidade do Gama e apresentou os pedidos já estabelecidos pelo movimento, enfatizando o afastamento de Carlos Macedo e Vilson de Sá, por 30 dias. Depois foi a vez de Toninho pedir o afastamento dos dois pelo prazo de cinco dias, até a marcação de uma nova reunião, sugerida por ele para o dia 30/11. Vilson ficou nervoso com os pedidos e questionou o porquê do nome dele estar junto. O atual vice-presidente gamense exaltou-se com o microfone e fez o pedido de renúncia à frente da mesa.

 

Toninho voltou a afirmar que Wagner Marques apenas retirava o lucro do clube e queria que Wagner Marques e Carlos Macedo se responsabilizassem também por todas as dívidas feitas de 1992 até agora. Outro conselheiro alviverde, Márcio Guedes, levantou e pediu para que houvesse um consenso. Márcio afirmou que o Gama necessita de mudança. "Vão haver sequelas, o que não pode haver  mutilação entre os conselheiros", disse. "O Gama precisa de uma mudança, precisamos deixar as vaidades de lado, o time precisa ser devolvido para população da cidade", finalizou Márcio, sendo aplaudido por vários conselheiros.

 

 

Toninho foi um dos grandes personagens da noite

Foto: Sérgio Vinícius

Com a sugestão de Márcio sobre uma comissão mista, para transição do poder e também com o pedido de afastamento dos diretores houve uma grande discussão. A advogada do clube, Dra. Kátia, pediu para falar e afirmou que precisavam pensar também na parte jurídica do clube, que não pode parar. Kátia disse que dia 30 h uma audiência em Fortaleza. Portanto, Macedo não poderia ir. O dirigente inclusive, falou que não queria mais o poder do clube, mas só sairia se houvesse uma comissão pronta para assumir, pois ele tinha responsabilidades. Além de Vilson, o segundo vice-presidente, Oldemar, ficou nervoso e também pediu a renúncia de seu mandato.

 

Antilhon Saraiva afirmou que era preciso acabar com a discussão e procurar uma condição conciliatória, em que o clube não ficasse lesado. Logo depois Carlos Macedo levantou. "Parece que o problema sou eu. Montem uma comissão para assumir que eu entrego, não quero ser empecilho algum", disse o atual presidente gamense.

 

Na discussão sobre quem seria o futuro presidente, Wagner Marques disse apoiar qualquer um que entrasse. "Se houver alguém que queira assumir o Gama, nós não vamos dificultar. Colocamos muita esperança no nome do Froylan, mas parece que foi só conversa. Eu estou bastante desgastado, o Macedo está bastante desgastado. Ele está comigo desde que entrei, é difícil", falou.

 

Após um intervalo de cinco minutos, às 22h o conselho em consenso com a atual diretoria decidiu a renúncia coletiva da atual diretoria e na próxima sexta-feira (02/12) haver outra assembleia, nela a nova chapa, formada por membros da oposição, assumirá o poder do clube. O nome de Flávio Raupp foi ventilado para ser o representante dessa chapa. "Vários nomes foram ventilados, vamos sentar nessa sexta (25/11) para decidir a formação dessa comissão que vai assumir o Gama", disse Flávio Raupp ao sair do estádio.

 

Pressão e comemoração

 

Ao passar entre torcedores que gritavam na chuva, carro de Wagner Marques leva ovada

Foto: Sérgio Vinícius

 

Durante todas as quatro horas de reunião o clima da assembleia estava pesado. Porém os conselheiros e principalmente, os diretores executivos ficaram tensos quando a torcida começou a cantar alto e a estourar foguetes e bombas do lado de fora do Bezerrão. A assembleia chegou a ser interrompida duas vezes pelo barulho dos fogos.

 

Ao fim da longa reunião, Toninho desabafou para o BloGama. "Foi uma vitória não só minha, da assembleia geral e também de todos os conselheiros. Vou lá para fora comemorar com a torcida", disse sorrindo. Já Wagner Marques afirmou que essa foi a melhor solução para o clube. "A atual diretoria está desgastada, estou colaborando há 18 anos. Tudo tem início meio e fim. Acho que tem que ser uma pessoa aqui da cidade do Gama, uma pessoa comprometida. Mesmo com a nova Torcedor solta fogos em comemoração do resultado diretoria continuarei trabalhando na questão do Brunoro e também de investidores estrangeiros que me procuraram na segunda-feira, fiquei o dia todo hoje com essa questão", finalizou Wagner Marques.

 

Com saída marcada para o dia 02/12, o atual segundo vice-presidente, Oldemar afirmou que volta. "Vamos formar um grupo que dê coesão, de quem ama mora no Gama. Foi uma decisão muito boa, vamos criar um novo ciclo de agora pra frente. O Wagner fez um ciclo muito bom, sou muito grato a ele mas agora vamos começar um novo ciclo, como o Dinamite fez no Vasco", comparou.

 

Apesar das quatro horas de espera o clima do lado de fora do Bezerrão era de comemoração. Torcedores se abraçavam e iam conversar com membros da oposição. Três viaturas da polícia faziam segurança do portão da entrada norte, onde estavam os carros de Carlos Macedo, Vilson de Sá e Wagner Marques. Nem a chuva impediu os torcedores de aguardarem a saída dos dirigente com gritos de ordem, ovos e fogos.

 

Os dez desafios da diretoria que assumiu em 2011:

 

1 - BUSCAR RECURSOS PARA BANCAR O TIME: Com dois campeonatos importantes para disputar, era necessário que a nova diretoria buscasse novos patrocínios para bancar a estrutura do clube na época. O BRB disponibilizava um patrocínio de algo em torno de R$ 70 mil para cada clube que disputava a primeira divisão, mas o Gama teria dificuldades para ter acesso é receita devido às certidões exigidas. O Alviverde ainda teria de aproximadamente R$ 180 mil mensais oriundos da venda da sede social. As receitas da Timemania estavam sendo utilizadas para pagamento de ações trabalhistas. Caso Froylan assumisse a presidência, o problema deveria ser solucionado de imediato, já que segundo suas palavras ele já teria parceiros que bancariam perto de R$ 700 mil mensais. A parceria com a Brunoro Sports deveria chegar em abril de 2012.

 

2 - REMONTAR O DEPARTAMENTO DE FUTEBOL: A nova diretoria teria pouco mais de um mês para montar uma equipe competitiva para as disputas do Campeonato Candango e Copa do Brasil. Na época, o Gama tinha apenas alguns jogadores da base vinculados ao time. Seria necessário a contratação de um Gerente de Futebol (o antigo Mauro Ramos foi demitido), buscar a remontagem do Staff (preparadores, massagistas, médicos, hospedagem de atletas, alimentação, lavanderia, transporte) e contratar em regime de urgência jogadores para vestir a camisa do Gama. A dificuldade era que o mercado estava aquecido e bons jogadores já tinha propostas de outros clubes. De quebra não se sabia se o CT estaria à disposição do Gama durante o exercício da nova diretoria.

 

3 - ACERTAR AS CONTAS COM A JUSTIÇA: Devido à crise política e econômica, o Gama deixou de pagar diversos funcionários e atletas nos últimos anos. A lei de responsabilidade diz que a responsabilidade das dívidas contraídas durante a gestão de um clube é atribuída diretamente aos seus dirigentes que respondem inclusive com o patrimônio pessoal. Várias ações estavam em curso inclusive em outros estados da federação e não se tinha noção do tamanho do "buraco" deixado pela antiga administração.

 

4 - RESGATAR OS TORCEDORES: Devido à má fase dentro e fora de campo, a torcida se afastou do clube e deixou de colaborar. O programa sócio torcedor estava parado por falta de pagamento da licença do programa que gerenciava as catracas e cartões. Para reconquistar a galera era necessário fazer uma boa campanha no Candangão e na Copa do Brasil a fim de beliscar uma vaga na série D deste ano. Para isso precisava de conquistar no mínimo o vice-campeonato , desde que o Brasiliense fosse o campeão.

 

5 - REMODELAR O ESTATUTO: Com diversos vícios praticados na era Wagner Marques, era um compromisso da futura diretoria remodelar o  estatuto para reconhecer os direitos dos antigos sócios remidos. Acertar a sua participação no clube e definir os convênios com o SESC.

 

6 - RENEGOCIAR CONTRATO COM A FUNFA: A empresa que administrava as categorias de base do Gama estava trazendo alegrias e dores de cabeça. A equipe de juniores sagrou-se campeão candanga e conquistou a vaga para a Copa São Paulo de 2012. Revelou diversos atletas e vinha conquistando novos valores da cidade. Porém, a saída de jogadores para outros clubes sem o pagamento de multa rescisória levantou suspeitas sobre a vantagem do contrato. A princípio a FUNFA deverá continuar gerenciando a base do Gama, mas sob novos termos.

 

7 - REALIZAR BALANÇO DO PATRIMÔNIO: Com a mal explicada negociação da venda da sede social para a empresa Tecnisa, a nova diretoria teria que correr atrás dos comprovantes de pagamento, escritura, contrato de compra e venda e notas promissórias para descobrir se o Alviverde teria mesmo novos imóveis em seu nome após a construção dos blocos de apartamentos e shoppings na área localizada ao lado do Gama Shopping. Ainda existia a ideia de colocar este patrimônio em nome de uma Fundação para proteger os imóveis de alguma eventual ação judicial ou atitude ilícita da diretoria. Outro mistério era o destino dado à sala que a Federação Brasiliense transferiu para a empresa de Wagner Marques e sobre a compra da antiga AAFIT por Wagner Marques.

 

8 - CENTRO DE TREINAMENTO: O CT do Gama que pertence à Wagner Marques e Agrício Braga no início esteve disponível para a nova administração e precisava de reparos no alambrado e nas instalações. Apenas jardineiros continuam trabalhando no local.

 

9 - RENEGOCIAR AS DÚVIDAS: Segundo registros das atas do clube, o Gama ainda devia, na época, cerca de R$ 1,8 milhão para Wagner Marques, R$ 750 mil para a empresa GOL e outras dívidas de investimentos feitos por antigos diretores. A solução seria uma auditoria total nas contas do clube durante os anos de 1992 até hoje, mas uma auditoria deste nível custa caro e no momento ninguém teria condições de arcar com os custos. A solução seria uma eventual negociação com os ex-investidores para diminuir a dívida.

 

10 - PROVER TRANSPARÊNCIA: Naquela época, o Gama tem sido uma "caixa-preta" pois não revelava balancetes anuais contrariando até a lei de responsabilidade fiscal. O compromisso da nova diretoria era é conceder o maior número de informações para os seus sócios, colaboradores e torcedores (coisa que nunca existiu). Para tanto teria que buscar meios para divulgação, já que o domínio do site oficial pertence à Solute Informática, empresa de Vinícius Marques, filho de Wagner Marques. A sede administrativa do clube estava em uma sala cedida pela administração regional do Gama localizada nas dependências do estádio Bezerrão e o acesso quase impossível para torcedores.

 

 

A pergunta que fica: o que mudou nesses 10 anos?